
"Arrasou, vovó!" O grito veio da plateia, de uma menina de cerca de 5 anos, assim que a avó, a coralista Noêmia, terminou de cantar com o Grão Coral da Fundação Cultural do Pará. Entre aplausos de filhos, netos e familiares, a cena marcou o 2º Festival Cynthia Charone de Corais 60+, realizado nesta quarta-feira (28), no Teatro Cynthia Charone, no IT Center, em Belém.
O encontro reuniu quatro corais e quase 300 vozes de pessoas com 60 anos ou mais, em uma noite marcada por diferentes gerações reunidas em torno da música. Promovido pelo Grupo Cynthia Charone, o festival também deu visibilidade ao papel da convivência social no envelhecimento e ao trabalho desenvolvido pela instituição com pessoas idosas.
Entre os participantes estava o Belencanto, coral mantido pelo Grupo Cynthia Charone dentro do Programa de Envelhecimento Ativo e Saudável. Criada em 2012, a iniciativa atende, segundo a instituição, cerca de 5 mil pessoas na Região Metropolitana de Belém e em Castanhal.
A médica Cynthia Charone, fundadora e presidente do Grupo, conta que a preocupação com o isolamento social surgiu durante os atendimentos oftalmológicos realizados pela instituição.
"Quando começamos a atender as pessoas idosas nos mutirões de catarata, a gente devolvia a visão, mas percebia que muitas voltavam para casa sozinhas. A solidão também adoece. O coral nasceu para isso: cantar junto é uma forma de cuidar", afirma.
O Belencanto encerrou o festival com cerca de 200 vozes. No repertório, clássicos do brega paraense e a canção "Ainda Bem", de Marisa Monte, cantada junto com a plateia. O grupo também já levou suas apresentações a eventos oficiais de órgãos públicos do estado.
Entre as integrantes está Normélia, de 71 anos, que começou a cantar no grupo aos 60. Onze anos depois, a atividade continua fazendo parte de sua rotina.
"Faz parte da minha vida já", conta. Quando perguntada se pensa em sair, a resposta é imediata: "Não penso em deixar."
À frente do Belencanto desde 2018, o maestro Jeremias Pinheiro Progênio Júnior, que estudou gerontologia no Hospital Israelita Albert Einstein e é pós-graduado em musicoterapia, afirma que as atividades vão além da preparação musical. Entre os integrantes do coral, há pessoas com mais de 80 anos.
"A gente não faz arte só pela arte. Faz arte como processo terapêutico, para a saúde cognitiva, emocional e social. Não é só afinar a voz e cantar", explica.
Para ele, um dos maiores desafios enfrentados pelos participantes não está na música, mas nas condições de deslocamento e no apoio familiar. Alguns moram longe dos locais de ensaio, dependem do transporte público e nem sempre encontram incentivo da família para participar das atividades.
"Vir para cá não é passatempo. A pessoa está cuidando da própria saúde, e quando ela fica melhor, a família inteira fica melhor."
A importância da convivência social na velhice também encontra respaldo científico. Um estudo da Universidade da Califórnia em São Francisco (UCSF), publicado em 2018, com 390 pessoas de 60 anos ou mais, identificou redução dos sentimentos de solidão e aumento do interesse pela vida entre participantes de corais comunitários, após seis meses de atividades.
No Pará, o envelhecimento da população amplia a relevância de iniciativas voltadas à participação social. Segundo o Censo 2022 do IBGE, o estado tinha 876.422 moradores com 60 anos ou mais. Em Belém, eram cerca de 205 mil pessoas nessa faixa etária, o equivalente a 15,8% da população da capital, que tem o maior índice de envelhecimento do Pará.
O Grão Coral da Fundação Cultural do Pará abriu o festival com 57 vozes, sob regência do maestro Mário Rinaldi. Com 23 anos de história, o grupo apresentou um repertório que foi de "Ave Maria" a um carimbó acompanhado de instrumentos e adereços de peixes.
Noêmia, que integra o coral há três anos, levou filhos e neta para acompanhar a apresentação.
"Nessa fase da vida, essa integração e a sociabilidade com as pessoas são muito importantes para nós. É uma felicidade fazer parte", afirma.
Também participaram os Cristais do Bolonha, com nove mulheres sob regência do maestro Eitor Carneiro, e o coral formado por integrantes do Sindicato dos Médicos do Pará (Sindmepa), da Associação Nacional dos Servidores da Previdência e da Seguridade Social (Anasps) e do Tribunal Regional do Trabalho da 8ª Região, com 29 vozes regidas pelo maestro Jeremias.
Para Jeremias, a mensagem do festival não se restringe às pessoas que já chegaram à terceira idade. "Se tudo der certo na nossa vida, todos nós vamos chegar lá", alertou.
O Belencanto integra o Programa de Envelhecimento Ativo e Saudável do Grupo Cynthia Charone, destinado a pessoas a partir dos 50 anos.
O ingresso no coral não ocorre por inscrição direta. Para participar, o interessado deve procurar a unidade do Grupo mais próxima de sua residência. Após avaliação por uma equipe multiprofissional, é elaborado um plano de atividades que pode incluir o canto coral.Informações: telefone e WhatsApp (91) 4009-8500.
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